Dica cultural: ‘Estudante de Medicina’, a obra em quadrinhos

Postada em 20 de abril de 2017 as 09:32
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Com alguma queda nas pulsações da Zarabatana, sediada na querida Campinas, nós temos na cena brasileira de quadrinhos autorais uma bela e pouco comentada reinserção do SESI (um doce para quem lembrou de décadas da revista SESINHO) como editor de quadrinhos muito autorais. Confira e adquira, se o dindim deixar: Mas, a pegada maior e mais regular em termos de quadrinhos de autor no Brasil vem da Vêneta, especialmente pelo fato dela ser o desaguadouro atual de uma mente que elabora e realiza obras de qualidade a décadas.

Posto isto, vamos à obra do dia: a sinopse de ‘Estudante de Medicina: Sexo, Cerveja e Corpos Dissecados’ nos informa:

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  Dissecações de cadáveres, abcessos purulentos e discussões eletrizantes sobre nucleotídeos, cromossomos e linfonodos. Por cinco anos (entre 2006 e 2011), essa foi a rotina de Cynthia B, aluna da mais tradicional e concorrida faculdade de medicina do país, a da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A mesma que, entre tantos outros notáveis, formou Carlos Chagas, Oswaldo Cruz, Emílio Ribas e o cirurgião plástico das estrelas Ivo Pitanguy.
Convivendo com algumas das mentes mais destacadas do Rio de Janeiro, que formariam no futuro a elite da classe médica do país, ela entra em uma rotina de festas, bebedeiras homéricas, sexo casual e dilemas existenciais. Todo esse cotidiano está registrado de forma franca e bem-humorada em Estudante de Medicina, seu primeiro álbum de história longa, livro que sai simultaneamente no Brasil e na França.

Eu fiz uma entrevista a distância com o Rogerio de Campos, um dos timoneiros da boa Nona Arte no Brasil, para melhor enfocar a obra. Segue, abaixo, a transcrição

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P    Antes de passar ao lançamento em foco, eu queria que você nos falasse como andam as vendas e a aceitação de duas obras da Vêneta.
Uma, que me encanta, e que já folheei largamente: ‘Imageria: o Nascimento das Histórias em Quadrinhos’, que leva  sua assinatura, e, pelo interesse óbvio na Bahia – dentre tantas pérolas de seu selo, ‘Holandeses’, um quase-lançamento que nos trouxe de volta o guerreiro André Toral.

R    Agora me toco que tenho publicado o Toral há quase trinta anos. Ele já estava na revista Animal, que fiz no final dos anos 80. O Toral é talvez um autor sem equivalente no mundo dos quadrinhos atuais. Como se fosse um contemporâneo de Hugo Pratt. O que ele faz é único, tanto como quadrinista como historiador. E Holandeses, além da importância como pesquisa e a beleza do desenho, tem uma história sensacional, com drama, suspense… enfim, um dos melhores lançamentos do ano.
Quanto ao Imageria fico um tanto sem graça quando lembro que tem meu nome na capa. Porque tem lá meus textos, mas o que eu gosto mesmo é que reproduz na íntegra várias obras primas como os quadrinhos de Gustave Doré, do Caran D’Ache  e o “Monsieur Jabot”, a primeira HQ moderna, de Rodolphe Töpffer. É a primeira vez que isso é publicado no Brasil. Acho que também é a primeira vez que o Yellow Kid é publicado no Brasil. Enfim, o Imageria é um livro muito bom, apesar de ter meu nome na capa.

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P   Nascida no Rio de Janeiro, criada em Hong Kong, residente na França, colaboradora do queridão Allan Sieber… quem é Cynthia B?
Por que a aposta da Vêneta na sua estreia?

R   A invasão do mundo dos quadrinhos pelas mulheres é a coisa mais importante que aconteceu nesta área nas últimas décadas. O aumento da presença feminina está mudando tudo nos quadrinhos: os eventos, as atitudes, os temas, as leituras… tudo.
E a Cynthia B é um dos maiores destaques desta invasão. Eu já gostava muito de seus quadrinhos de humor, mas, no passado, fiquei muito impressionado aquela HQ contando sua experiência com o aborto, publicada na revista Piauí. A mistura de franqueza, honestidade e ao mesmo delicadeza e humor. Essa evolução agora chega em um ponto muito alto com Estudante de Medicina, no qual ela conta de maneira muito franca o que foi sua vida de estudante na Faculdade de Medicina da Universidade de Federal do Rio de Janeiro, a mais tradicional do Brasil. E ela fala de tudo: dos entusiasmos, das frustrações, das festas, das bebedeiras, das ressacas, das dúvidas, dos vacilos… É um retrato pungente do amadurecimento de uma jovem estudante.

P     Como está sendo o retorno, principalmente de crítica?

R   Não poderia ser melhor! Não só na imprensa brasileira, mas também na francesa. Até em revistas de medicina estrangeiras têm elogiado o livro: “Estudante de Medicina é provavelmente a única HQ do mundo que se inicia com uma cena de um abscesso purulento. É nojento, mas anuncia a franqueza à toda prova desta obra”, diz o crítico e médico Yvan Pandelé, da revista What’s Up Doc?, focada em jovens médicos.

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O que temos em frente? Pode adiantar o título de mais alguma obra indo pro prelo?

Temos vários livros que estamos relançando, como o ‘Coltrane’, biografia de John Coltrane pelo italiano Paolo Parisi [já vi e recomendo, nota de MA], e ‘O Processo’, de Chantal Montellier (que aliás chega ao Brasil agora em maio).

Se quiser e puder, por razões de solidariedade de quem vende livros, indico a aquisição diretamente junto à editora

Outros Registros

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Marko Ajdaric e seu exemplar da mais importante coletânea de Belmonte

Lindo, lindo, me lembrou da Folha de São Paulo que eu lia todos os dias, no início dos anos 1980, esta homenagem que o mestre Alvaro de Moya (em cujo caso, ‘mestre’ é pouco) fez publicar ontem pelos 70 anos sem a aura de Belmonte. Leia, passe adiante, entusiasme-se.

Sobre o monumental ‘Ardalen’, do genial quadrinhista galego Miguelanxo Prado, vou escrever para a semana, por que o tema da dica será conexões com uma área da… medicina.

Por aqui

Em Salvador, mais um momento da carreira de nosso colega Marco Alemar, autor do único ‘mangá baiano’ de repercussão nacional (intitulado ‘Big Hat Boy’): um curso de animação. Fico muito feliz de ver o carinho com que Walter Lima, Bel Borba e nosso ‘pai de todos’ da animação em tempos recentes, Quiá Rodrigues recomendam o curso e a trajetória do Marco. Confira.

Texto e pesquisa de Marko Ajdaric.
https://www.facebook.com/marko.ajdaric.79

Material exclusivo do Sindicato dos Médicos da Bahia. Não se autorizam cópias, no todo ou em parte.



2 respostas para “Dica cultural: ‘Estudante de Medicina’, a obra em quadrinhos”

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